A AGENDA DOS MEUS AVÓS

01 outubro 2023

Imagem de RetroSupply no Unsplash


A partir de uma leitura tão agradável de "Como se encontrar na escrita", da Ana Holanda, escolhi um objeto do cotidiano para treinar o olhar afetuoso sobre o que é ordinário. Como a agenda é meu instrumento de trabalho, lembrei-me que, na infância, secretariar meus avós era uma brincadeira bastante divertida, e feita com muito capricho e esmero.

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A casa dos avós é a mais doce lembrança da infância feliz. Um lugar mágico para passar as férias escolares inteiras. Ou para se abrigar naquela fuga de casa, mesmo que aos prantos! Uma chantagem emocional aos pais que, por alguma peraltice infantil, tenha colocado a criança no cantinho do pensamento. Onde se teve a brilhante ideia de pendurar nas costas miúdas uma sacolinha de muitos brinquedos e poucas peças de roupa, e partir.

Nesse lugar mágico sempre tem um espaço intocável, no qual os adultos não permitem a circulação dos pequenos. No imaginário infantil, nesse espaço, há um tesouro muito bem guardado em um baú que precisa ser descoberto. Custe o que custar. O escritório do meu avô era um desses espaços fechado a sete chaves. O ciúme dele por suas coisas era tão latente quanto a vigília de minha avó – a “generala”.

[E olha que quem servia ao exército era ele! O capitão Sálvio. O único da tropa a usar nome próprio porque palavras alemãs haviam sido proibidas na ditadura de Vargas, incluindo sobrenomes].

Um dos prazeres de minha infância era passar a limpo a agenda dos meus avós. Com o consentimento deles, lógico. Todos os anos. Nas férias de verão, as mais longas. Como se fosse um momento de retrospectiva das vidas ali registradas, eu precisava saber quem faleceu ou quem se mudou para atualizar as informações. E, na conversa com os donos da agenda, eu descobria o motivo pelo qual as pessoas simplesmente partiam, seja para uma nova vida no plano espiritual ou em um novo ciclo terreno.

A agenda do meu avô era impecável. Nela, não havia espaços em branco. Nomes e sobrenomes completos, sem abreviações, para todos os contatos, com seus respectivos telefones, endereços e datas de aniversário. Não importa se eram de um familiar ou de um amigo, se moravam perto ou longe, de quem se tinha notícias ou não. Meu avô gostava de escrever cartas, cartões de Páscoa e de Natal e telegramas de aniversário. De tanto que gostava, tinha até uma caixa postal própria nos Correios, a de número 513, checada religiosamente uma vez por semana em suas idas matinais à praça pública.

O capricho nas suas anotações, e no respeito à ordem alfabética da agenda, não me deixava em dúvida sobre o que eu deveria passar a limpo. Por vezes, nem era preciso fazê-lo. A letra cursiva era primorosa, de fácil e agradável leitura, de excelente português. Seus escritos que perpetuaram no tempo são uma obra da arte caligráfica. Com todo cuidado, em letras de forma, ele escrevia MUDOU-SE ou FALECIDO para destacar as informações sobre aquela pessoa que era carinhosamente o seu contato. Se ele errasse, escrevia “digo” e corrigia sua anotação.

[Até hoje tenho impressão de que ele não gostava de errar, de tão perfeccionista que era. E naquele tempo não havia como consertar – a não ser passando a limpo].

Suas agendas permaneceram guardadas nas gavetinhas da estante de seu escritório proibido. Até o triste dia da partilha, quando a casa da vila foi fechada para sempre. Um dos meus tios, ou primos, não sei ao certo, deve ter pegado essas agendas como uma recordação do meu avô. O nosso exemplo de retidão e paciência. O oposto de minha avó, uma mulher que unia e desunia pessoas com a mesma intensidade.

A agenda da minha avó era uma bagunça. Mesmo com uma quantidade de informações muito menor. Para ela, bastava o primeiro nome e o número de telefone de seus contatos. Recordo-me que ela adorava um telefonema. Um desespero para o meu avô, que sabia muito bem cuidar do dinheiro. Naquele tempo, uma linha telefônica valia um imóvel. As chamadas, caríssimas. Para ela, nada disso importava. Meu avô é que era sovina e implicante mesmo.

Em cada ligação, a busca pela agenda que vivia perdida pela casa. Nem sempre estava próxima do telefone. Quando encontrada, só ela entendia seus escritos, e só ela localizava o contato desejado naquele caos de suas anotações que ocupavam qualquer canto da página. Às vezes, demorava um tempo. As folhas eram viradas com seus dedos lambidos e, no semblante enrugado, era visível sua dúvida sobre onde está aquele número.

O desrespeito à ordem alfabética, e até mesmo às linhas retas dos espaços para preenchimento, tornava árduo o meu trabalho de passar a limpo a agenda. Levava dias para concluir a tarefa a mim confiada! E eu, sendo criança, sempre precisava da ajuda de minha mãe para desvendar as anotações indecifráveis. A letra de minha avó revelava seus poucos anos de estudo, a sua dificuldade com a leitura e a escrita e sua total falta de paciência. Por vezes, até mesmo sua raiva.

De sua agenda, ou “o caderno” como ela chamava, era preciso excluir não apenas os defuntos que tanto a apavoravam, mas também aqueles com quem ela havia brigado. Sabe Deus por qual motivo. Nomes e telefones eram riscados no forte calor das emoções, assim como os rostos da amizade desfeita impressos numa fotografia. Algum tempo depois, por arrependimento ou por um acordo de paz, a pessoa voltava a aparecer no caderno pelas letras da ignorância de minha avó.

Uma a uma, todas as agendas dela foram descartadas. A nova, comprada na tradicional Pérola em nossos deliciosos passeios pelo calçadão da cidade, substituía à velha. Conforme os dias, as semanas e os meses se passavam, a letrinha infantil se misturava com os garranchos de gente idosa. Quando estes escritos tomavam conta de todos os espaços em branco da agenda, era sinal de que as férias de verão estavam por vir e a mini secretária iria chegar a qualquer momento para organizar tudo novamente.

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