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| Imagem de Esther Ní Dhonnacha no Unsplash |
“Qualquer ação regular e repetitiva prepara o poço [de ideias]. Muitos escritores já ouviram histórias tristes sobre as irmãs Brönte e a pobre Jane Austen, forçadas a esconder seus talentos sob seus bordados. Mas um pequeno experimento com um cerzido pode lançar uma nova luz sobre essas atividades. A costura, algo regular e repetitivo por definição, tanto acalma quanto estimula o artista interior. Tramas inteiras podem ser alinhavadas na nossa imaginação enquanto trabalhamos com a agulha. Como artistas, podemos literalmente pintar e bordar”.
Disse Julia Cameron em seu livro “O caminho do artista”.
***
Dentre
as imagens impressas de minha infância, uma delas é minha favorita. Ganhou um
lugar de destaque na estante, em uma moldura de porta-retrato estilo Luís XV. Serve
como um lembrete para eu não me esquecer da criança artista que habita em mim.
A rotina da vida adulta lhe submete à ausência constante. Sob a alegação da
falta de tempo.
No
verso está escrito: “Daniella. Aos seis
anos”.
Com as letras caprichosas de meu avô. Em caligrafia que transmite o cuidado de
quem escreveu com medo dos borrões da tinteira azul. Era o verão de 1988. Na
cena retratada, a herança ancestral pelo dom das artes manuais – dos tempos da bisa
costureira, e a prova social da criança artista que eu fui – a mini bordadeira.
As melhores memórias
afetivas foram construídas pelos meus avós. Na casa que se fechou para sempre.
Após duas décadas do registro especial. Ainda que as lembranças sejam falhas pela
passagem veloz do tempo, recordo-me um pouco da situação: vó Ena, no papel de
diretora de cena, ditando como eu deveria me postar. E vô Sálvio, com sua
Pentax em mãos, à espera dos ajustes finais.
Ansioso pelo clique ágil, meu
avô sentia-se pressionado pelas tagarelices de minha avó que, por toda vida, lhe
dava ordens. Até sobre o melhor ângulo: “Vai mais para frente. Vai mais
para trás. Bate logo a foto, pai!”. Pela testa franzida e a ponta da
língua de fora, era evidente a dificuldade dele para enxergar a cena pelo
visor. Os óculos de grau atrapalhavam-no, embora ele não reclamasse e o
falatório ao redor continuasse.
Quando reveladas, suas fotografias eram uma
surpresa. Em boa parte delas, a família fotografada tinha uma
parte decepada. Ora sem pernas, ora sem braços, ora sem cabeças. Ou, então, por
um erro de ângulo, alguém desaparecia da cena mesmo que estivesse participado
dela. A foto da
mini bordadeira se salvou por um milagre. É perfeita! Pela estética e pela
essência de mim.
Meu avô conseguiu me enquadrar ao centro, a
iluminação estava ótima e eu, numa introspecção espontânea. Sentada na escada
de poucos degraus, em frente da porta da casa que se fechou. De perninhas
cruzadas, picadas por pernilongos. Com os cabelos cortados como “Chitãozinho e
Xororó”. Vestida com um figurino “de posto de gasolina”. Um conjunto de roupas que eu
ganhei da vizinha, e gostei tanto, mas tanto, que a minha mãe mal podia
colocá-lo para lavar.
Em meu semblante, o estado de
atenção plena ao primeiro bordado com telas Vera, compradas na tradicional Fio
de Ouro – que resiste até hoje no calçadão dos passeios nas tardes de minha
infância. Sobre o meu colo, um pato desenhado em poucas cores na talagarça. Um dia,
depois de todo bordado em meio ponto, ele foi emoldurado. Mas, acabou se
perdendo em um momento desapego, decerto. O que agora eu lastimo.
Para além das saudosas lembranças, observo o
poder que as artes manuais exercem sobre mim, repercutindo na vida adulta. Nelas,
eu me deleito ao mergulhar entre os fios de linhas, lãs e tecidos, imergindo nas
profundezas da alma. Em cada ponto laçado na trama colorida, por diferentes
agulhas e técnicas, esvazio a mente aflita por vis pensamentos para criar
histórias imaginárias de fazer suspirar.
No silêncio do ateliê,
improvisado no quarto de visitas, sou absorvida pela agilidade do meu tecer.
Perco a percepção sobre o tempo que transcorre através da janela. Entre o
nascer e o pôr do Sol, sou capaz de permanecer em atividade artística, na
plenitude do momento presente. Com raras interrupções. É quando me lembro do
almoço e do jantar esquecidos na geladeira.
Em minha solitude criativa, sou convidada à meditação passiva enquanto os movimentos repetitivos exigem foco e atenção. Se dispersar, o erro é inevitável. Desmanchar pontos provoca o sentimento da raiva, e o abridor de casas é manipulado como se fosse uma arma branca. O conserto do trabalho alivia. Mas, acontece de o erro ser cometido novamente. E, então, é hora de espairecer. Desligar a máquina, apagar as luzes e sair.
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| Imagem de vô Sálvio |



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