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A CRIANÇA ARTISTA QUE HABITA EM MIM

01 janeiro 2024

Imagem de Esther Ní Dhonnacha no Unsplash

“Qualquer ação regular e repetitiva prepara o poço [de ideias]. Muitos escritores já ouviram histórias tristes sobre as irmãs Brönte e a pobre Jane Austen, forçadas a esconder seus talentos sob seus bordados. Mas um pequeno experimento com um cerzido pode lançar uma nova luz sobre essas atividades. A costura, algo regular e repetitivo por definição, tanto acalma quanto estimula o artista interior. Tramas inteiras podem ser alinhavadas na nossa imaginação enquanto trabalhamos com a agulha. Como artistas, podemos literalmente pintar e bordar”.

Disse Julia Cameron em seu livro “O caminho do artista”.

*** 

Dentre as imagens impressas de minha infância, uma delas é minha favorita. Ganhou um lugar de destaque na estante, em uma moldura de porta-retrato estilo Luís XV. Serve como um lembrete para eu não me esquecer da criança artista que habita em mim. A rotina da vida adulta lhe submete à ausência constante. Sob a alegação da falta de tempo.

No verso está escrito: “Daniella. Aos seis anos”. Com as letras caprichosas de meu avô. Em caligrafia que transmite o cuidado de quem escreveu com medo dos borrões da tinteira azul. Era o verão de 1988. Na cena retratada, a herança ancestral pelo dom das artes manuais – dos tempos da bisa costureira, e a prova social da criança artista que eu fui – a mini bordadeira.

As melhores memórias afetivas foram construídas pelos meus avós. Na casa que se fechou para sempre. Após duas décadas do registro especial. Ainda que as lembranças sejam falhas pela passagem veloz do tempo, recordo-me um pouco da situação: vó Ena, no papel de diretora de cena, ditando como eu deveria me postar. E vô Sálvio, com sua Pentax em mãos, à espera dos ajustes finais.

Ansioso pelo clique ágil, meu avô sentia-se pressionado pelas tagarelices de minha avó que, por toda vida, lhe dava ordens. Até sobre o melhor ângulo: “Vai mais para frente. Vai mais para trás. Bate logo a foto, pai!”. Pela testa franzida e a ponta da língua de fora, era evidente a dificuldade dele para enxergar a cena pelo visor. Os óculos de grau atrapalhavam-no, embora ele não reclamasse e o falatório ao redor continuasse.

Quando reveladas, suas fotografias eram uma surpresa. Em boa parte delas, a família fotografada tinha uma parte decepada. Ora sem pernas, ora sem braços, ora sem cabeças. Ou, então, por um erro de ângulo, alguém desaparecia da cena mesmo que estivesse participado dela. A foto da mini bordadeira se salvou por um milagre. É perfeita! Pela estética e pela essência de mim.

Meu avô conseguiu me enquadrar ao centro, a iluminação estava ótima e eu, numa introspecção espontânea. Sentada na escada de poucos degraus, em frente da porta da casa que se fechou. De perninhas cruzadas, picadas por pernilongos. Com os cabelos cortados como “Chitãozinho e Xororó”. Vestida com um figurino “de posto de gasolina”. Um conjunto de roupas que eu ganhei da vizinha, e gostei tanto, mas tanto, que a minha mãe mal podia colocá-lo para lavar.

Em meu semblante, o estado de atenção plena ao primeiro bordado com telas Vera, compradas na tradicional Fio de Ouro – que resiste até hoje no calçadão dos passeios nas tardes de minha infância. Sobre o meu colo, um pato desenhado em poucas cores na talagarça. Um dia, depois de todo bordado em meio ponto, ele foi emoldurado. Mas, acabou se perdendo em um momento desapego, decerto. O que agora eu lastimo.

Para além das saudosas lembranças, observo o poder que as artes manuais exercem sobre mim, repercutindo na vida adulta. Nelas, eu me deleito ao mergulhar entre os fios de linhas, lãs e tecidos, imergindo nas profundezas da alma. Em cada ponto laçado na trama colorida, por diferentes agulhas e técnicas, esvazio a mente aflita por vis pensamentos para criar histórias imaginárias de fazer suspirar.

No silêncio do ateliê, improvisado no quarto de visitas, sou absorvida pela agilidade do meu tecer. Perco a percepção sobre o tempo que transcorre através da janela. Entre o nascer e o pôr do Sol, sou capaz de permanecer em atividade artística, na plenitude do momento presente. Com raras interrupções. É quando me lembro do almoço e do jantar esquecidos na geladeira.

Em minha solitude criativa, sou convidada à meditação passiva enquanto os movimentos repetitivos exigem foco e atenção. Se dispersar, o erro é inevitável. Desmanchar pontos provoca o sentimento da raiva, e o abridor de casas é manipulado como se fosse uma arma branca. O conserto do trabalho alivia. Mas, acontece de o erro ser cometido novamente. E, então, é hora de espairecer. Desligar a máquina, apagar as luzes e sair. 


Imagem de vô Sálvio


O MELHOR BIFE É MEU!

01 dezembro 2023

 

Imagem de Tim Toomey no Unsplash
Imagem de Tim Toomey no Unsplash

A escritora Julia Cameron ensina, no livro “O caminho do artista”, duas técnicas para despertar a criatividade adormecida dentro de nós: as páginas matinais, que são os diários, e o encontro com o artista, que são os momentos de criação. Pela visão holística, é algo como dar e receber do Universo. A partir da libertação das palavras presas na mente, recebemos a fonte de inspiração para criar a nossa arte. É providencial. O texto "O melhor bife é meu!" nasceu como um exercício de escrita das minhas páginas matinais (ou journaling).

 ***

Minha avó viveu pelo meu avô. E ele, por ela. Até a última exalação. No silêncio de seu sono, ele foi o primeiro a descansar. Como se não quisesse aflorar os nervos dela. Com a síndrome do coração partido, ela não suportou viver a ausência de seu amor protetor. E se foi. Pouco tempo depois. Um intervalo de dois anos. Como se fosse para concluir a missão dele na vida terrena.

Em nossos quase 30 anos de convivência, apreciei o jeitinho deles no cuidado excessivo um com o outro. Ela sempre deixando o melhor para ele. Até o bife na hora do almoço. E ele, sempre ao redor, protegendo-a de seus medos. Como o da solidão. O maior de todos. Ou apaziguando suas crises de mau humor. Toda vez em que ela era contrariada por alguém.

— “Calma, Tchatcha!”, dizia ele, soltando uma risada gostosa que lhe era tão característica.

Pelo meu olhar infanto-juvenil inocente, meus avós eram a personificação do amor sólido que eu gostaria de viver na vida adulta. Um exemplo de dedicação exclusiva ao outro. Com respeito, tolerância e reciprocidade. Pelo menos por 68 anos. Em cumprimento da promessa religiosa: “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, em todos os dias de nossas vidas, até que a morte nos separe”.

Um dia, ao buscar internamente uma resposta sobre a falência dos meus relacionamentos, descobri que a bagagem dos meus avós era excessiva demais para eu carregar na corcunda de minhas costas. Ainda que tenha sido um amor exemplar, no final das contas, eles se anularam um pelo outro. Sem percepção. Apenas pelo dever de cumprir seus papeis: de cuidar e de prover.

Neste tempo e espaço, muito mais líquidos do que nos anos 1940, não há lugar para a mesma dedicação dos meus avós. As relações são baseadas no tudo ou nada, e sem paciência. Com a visão embaçada por lágrimas, entendo que engrandecer o outro pela oferta de tudo o que há de melhor, até mesmo o maior e mais suculento dos bifes, é sinal de pura falta de amor-próprio.

Diante da impossibilidade de replicar heranças emocionais, no meu coração canceriano residem os sentimentos de culpa e remorso. Indagações povoam minha mente: quantos momentos deixei de viver porque optei por dizer não a mim mesma? Ou o inverso: das vezes em que disse sim, qual era o limite entre a atitude egoísta e a expressão do autoamor?

Para desapegar da cultura familiar de exaltação dos homens, a ideia d’
O melhor bife é meu representa, para mim, o despertar da consciência feminina para tudo aquilo que devemos fazer por nós mesmas, em primeiro lugar, incluindo o ato de nos servir do melhor pedaço de bife nas refeições. Pois, a duras penas, percebi que quando cuidamos do nosso bem-estar físico e mental, para depois pensar no do outro, oferecemos o mais genuíno amor. Sem anulação.

 
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