O MELHOR BIFE É MEU!

01 dezembro 2023

 

Imagem de Tim Toomey no Unsplash
Imagem de Tim Toomey no Unsplash

A escritora Julia Cameron ensina, no livro “O caminho do artista”, duas técnicas para despertar a criatividade adormecida dentro de nós: as páginas matinais, que são os diários, e o encontro com o artista, que são os momentos de criação. Pela visão holística, é algo como dar e receber do Universo. A partir da libertação das palavras presas na mente, recebemos a fonte de inspiração para criar a nossa arte. É providencial. O texto "O melhor bife é meu!" nasceu como um exercício de escrita das minhas páginas matinais (ou journaling).

 ***

Minha avó viveu pelo meu avô. E ele, por ela. Até a última exalação. No silêncio de seu sono, ele foi o primeiro a descansar. Como se não quisesse aflorar os nervos dela. Com a síndrome do coração partido, ela não suportou viver a ausência de seu amor protetor. E se foi. Pouco tempo depois. Um intervalo de dois anos. Como se fosse para concluir a missão dele na vida terrena.

Em nossos quase 30 anos de convivência, apreciei o jeitinho deles no cuidado excessivo um com o outro. Ela sempre deixando o melhor para ele. Até o bife na hora do almoço. E ele, sempre ao redor, protegendo-a de seus medos. Como o da solidão. O maior de todos. Ou apaziguando suas crises de mau humor. Toda vez em que ela era contrariada por alguém.

“Calma, Tchatcha!”, dizia ele, soltando uma risada gostosa que lhe era tão característica.

Pelo meu olhar infanto-juvenil inocente, meus avós eram a personificação do amor sólido que eu gostaria de viver na vida adulta. Um exemplo de dedicação exclusiva ao outro. Com respeito, tolerância e reciprocidade. Pelo menos por 68 anos. Em cumprimento da promessa religiosa: “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, em todos os dias de nossas vidas, até que a morte nos separe”.

Um dia, ao buscar internamente uma resposta sobre a falência dos meus relacionamentos, descobri que a bagagem dos meus avós era excessiva demais para eu carregar na corcunda de minhas costas. Ainda que tenha sido um amor exemplar, no final das contas, eles se anularam um pelo outro. Sem percepção. Apenas pelo dever de cumprir seus papeis: de cuidar e de prover.

Neste tempo e espaço, muito mais líquidos do que nos anos 1940, não há lugar para a mesma dedicação dos meus avós. As relações são baseadas no tudo ou nada, e sem paciência. Com a visão embaçada por lágrimas, entendo que engrandecer o outro pela oferta de tudo o que há de melhor, até mesmo o maior e mais suculento dos bifes, é sinal de pura falta de amor-próprio.

Diante da impossibilidade de replicar heranças emocionais, no meu coração canceriano residem os sentimentos de culpa e remorso. Indagações povoam minha mente: quantos momentos deixei de viver porque optei por dizer não a mim mesma? Ou o inverso: das vezes em que disse sim, qual era o limite entre a atitude egoísta e a expressão do autoamor?

Para desapegar da cultura familiar de exaltação dos homens, a ideia d’
O melhor bife é meu representa, para mim, o despertar da consciência feminina para tudo aquilo que devemos fazer por nós mesmas, em primeiro lugar, incluindo o ato de nos servir do melhor pedaço de bife nas refeições. Pois, a duras penas, percebi que quando cuidamos do nosso bem-estar físico e mental, para depois pensar no do outro, oferecemos o mais genuíno amor. Sem anulação.

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