A INTOCÁVEL BIBLIOTECA DO MEU AVÔ

01 novembro 2023


Imagem de Clarisse Meyer no Unsplash

Uma das dicas valiosas do escritor Shaun Levin para destravar a escrita é iniciar um pensamento com frases âncoras como: "o que eu realmente quero dizer...", ou "eu me lembro...", ou ainda "eu não me lembro". E foi assim que eu escrevi sobre a biblioteca do meu avô e minhas memórias afetivas com os livros que lá habitavam.

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Na casa da vila militar, no escritório do meu avô, havia uma pequena biblioteca. Pouco a pouco e sem pretensão, ela foi se constituindo toda vez que alguém o presenteava, com livro, em alguma data especial. No aniversário em abril, ou no segundo domingo de agosto, ou na chegada do Papai Noel. Ou ainda numa visita amiga que há muito tempo não se via e para quem se ofertava um apetitoso café da tarde que cheirava a rosca de polvilho.

Esse acervo particular, mais técnico do que literário – o que, na minha infância, parecia entediante, também era incrementado com livros “gratuitos” que, por vezes, faziam parte do jornal do dia, comprado na popular banca do calçadão de petit-pavé da cidade. Um ponto de encontro do meu avô com os seus amigos, militares como ele, nos passeios matinais que incluíam ainda uma ida à agência dos Correios e ao Banco do Brasil.

Cada livro trazia consigo os temas que mais lhe interessaram ao longo de sua longa vida de 93 primaveras: fotografia analógica para aprender a manusear a Pentax, histórias de imigrantes alemães para desvendar as origens de nossa família e alimentação saudável que se tornou uma preocupação constante quando a idade avançou e a velhice chegou. Os seus bordões fit ainda ecoam em minha mente:

— Vamos primeiro comer a comida para depois beber a bebida, dizia ele, quicando o talher na borda do prato para chamar atenção enquanto o almoço era servido.

Ou ainda:

— A saúde começa pela boca, quando flagrava uma criança com pacote de salgadinho nas mãos, o que a fazia correr dele para comer às escondidas.

Contudo, não me lembro de assistir aos livros da pequena biblioteca do meu avô serem folheados por suas mãos enrugadas e cheias de pintas, em um momento de leitura com seus permanentes óculos de grau com aros quadrados, sentado na exclusiva poltrona do papai que, pelo tempo de uso, até já continha as marcas do seu corpo pesado. Provavelmente, a companhia tagarela de minha avó não lhe permitiu desfrutar desse prazer, e na quietude que lhe era tão peculiar.

Também foge da lembrança o meu avô frequentando a livraria da cidade, em frente da famosa pastelaria “da portinha”, onde um dia eu comi pastel de carne e tomei laranjinha na companhia de minha mãe e minha avó. Pelo que minha memória guardou, o jornal diário foi sua única fonte de leitura, junto da revista semanal que primeiro chegava aos assinantes para depois aos jornaleiros – que, naquele tempo, não muito distante deste, continham mais reportagens profundas e menos notícias superficiais.

Cresci percebendo que a pequena biblioteca do meu avô era intocável até para ele mesmo, por conta do preciosismo em guardar as coisas bem ordenadas, pelo ciúme em emprestá-las e pela proteção exacerbada de minha avó. E, então, os livros dele iam direto às prateleiras tão logo saíam de suas embalagens, preenchendo os vazios da estante de imbuia e se avizinhando aos discos de vinil e álbuns de fotografia ali guardados também.

Na disposição lado a lado, os livros permaneceram assim: amarelando pela passagem dos anos, empoeirando pela falta de limpeza periódica e exalando seus odores de papel em degradação. Ao intruso da intocável biblioteca do meu avô, não era permitida a retirada dessa ordem. Primeiro os livros maiores, depois os menores. Tal como a escadinha de filhos numa foto antiga de família que se perpetuou pelo restauro.

Se o intruso fosse uma criança, com os dedinhos ávidos para mexer naquela estante, a situação agravava. Minha avó agia como um feroz cão de guarda, coibindo preciosa oportunidade de contato com o mundo da leitura. Dessa forma, vivi uma cultura familiar de pouco incentivo ao hábito de ler. Até que, no dia de partilhar os pertences do meu avô, fui responsável pela libertação desses livros, carregando, junto aos exemplares, a inquietação sobre como teria sido se a leitura fosse compartilhada entre nós dois.

Entretanto, no contratempo do tempo, o tête-à-tête literário se perdeu. E, para além dessas memórias que deixaram de ser construídas, ficaram os livros do meu avô - os quais fiz circular de mãos em mãos quando emprestados aos frequentadores da biblioteca pública. Dentre os livros libertos, uma trilogia da história de Santa Catarina. Os únicos exemplares que, em um dia de minha juventude, retirei da intocável biblioteca sob a promessa de colocá-los no mesmo lugar após a leitura. Assim foi feito.

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